Lady Gaga continua a surpreender sua audiência com seu talento camaleônico e habilidade de revisitar suas próprias estéticas e conceitos de forma inovadora. Com Abracadabra, a artista retorna ao pop sombrio e teatral que a consagrou, oferecendo um videoclipe repleto de simbolismo, moda e coreografias impactantes. Lançada durante o Grammy 2025, a faixa faz parte do álbum Mayhem, marcado por uma exploração intensa das dualidades e contradições que compõem a identidade de Gaga.
A sonoridade de ‘Abracadabra’
A música traz influências de dance-pop, eletrônica e house, com sintetizadores envolventes e uma batida pulsante. Há também resquícios da sonoridade futurista explorada em Chromatica, especialmente na produção lapidada e nos elementos de house music.
Muitos críticos e fãs também perceberam outros elementos de produções anteriores de Gaga, como o refrão grandioso de Bad Romance e a energia contida em Born This Way. Essa mistura de influências resultou em um som familiar, mas atualizado, que dialoga com a era moderna da música pop, ao mesmo tempo em que mantém a energia intensa que caracterizou Chromatica.
Apesar de algumas comparações com trabalhos anteriores, Abracadabra ainda se destaca como um dos singles mais fortes de Gaga nos últimos anos. Sua execução vocal intensa e a incorporação de elementos teatrais contribuem para uma experiência sonora hipnótica.


Videoclipe: uma releitura do legado de Gaga
O clipe de Abracadabra não apenas homenageia Alejandro (2010), mas o reinterpreta sob uma nova perspectiva. Dirigido por Gaga em parceria com Parris Goebel e Bethany Vargas, o videoclipe apresenta uma batalha coreografada entre dois lados da artista: um ser vermelho, representando o caos e a escuridão, e uma Gaga vestida de branco, simbolizando a luz e a resiliência.
A cena inicial do clipe evoca diretamente Alejandro, com uma tomada aérea que mostra Gaga sentada em um trono, observando seus dançarinos. Ao longo do vídeo, elementos como a coreografia estilizada, os figurinos monocromáticos e a simbologia religiosa reforçam a conexão entre as duas obras. As cruzes invertidas, por exemplo, aparecem novamente, mas dessa vez dentro de um contexto que destaca a luta interior da artista.
Além disso, a personagem Mayhem, já introduzida no videoclipe de Disease, está presente em Abracadabra, trazendo uma continuidade visual e narrativa ao universo de Mayhem. O chapéu, uma versão vermelha do vestido e a bengala usada no clipe fazem referência direta à figura da entidade que representa o medo e a autodestruição. Essa escolha estética também remete ao videoclipe de Paparazzi, onde Gaga dançava com uma muleta após sofrer uma queda dramática. A cantora passou por uma cirurgia no quadril anos atrás, tema abordado em Applause, quando carrega uma perna com flores no videoclipe (break a leg). Agora, com Abracadabra, essa representação pode indicar uma nova forma de encarar a dor e a superação.


Curiosamente, a estética do clipe também remete à campanha Born to Dare, da Tudor, estrelada por Lady Gaga em 2017. Na campanha, a artista explorava visuais que combinavam elegância clássica com um toque arrojado e ousado, algo que também pode ser visto em Abracadabra. A dualidade entre o claro e o escuro, o clássico e o moderno, e a presença de duas versões de Gaga em confronto reforçam essa semelhança, criando uma narrativa visual intensa e simbólica.
O simbolismo do figurino em ‘Abracadabra’
Outro aspecto inovador do videoclipe está nos figurinos. Gaga reutilizou trajes de seu próprio arquivo pessoal e incorporou tecidos reaproveitados, incluindo vestidos de noiva antigos para criar sua capa branca icônica. Essa decisão reforça a narrativa do videoclipe sobre transformação e resiliência, como também alinha a estética da produção com princípios de moda sustentável.
A mira cultural e política de ‘Abracadabra’
Gaga tem um histórico de usar sua arte como plataforma para debates sociais e políticos. Em Alejandro, a artista criticava o militarismo e fazia uma alusão à política Don’t Ask, Don’t Tell, que discriminava soldados LGBTQ+. Abracadabra continua essa tradição ao destacar artistas queer e figuras da cena ballroom, como Honey Balenciaga.
Em entrevista para a Elle, Gaga enfatizou a importância da comunidade na criação do videoclipe: “Não posso iniciar ou receber esse desafio sem minha comunidade, e essa comunidade é incrivelmente forte”, declarou. O vídeo é, assim, um manifesto de resiliência e unidade em um momento em que direitos LGBTQ+ enfrentam desafios políticos significativos.


Recepção da crítica e dos fãs
A recepção à música e ao videoclipe tem sido mista. Enquanto alguns críticos destacam a repetição de elementos de eras passadas de Gaga, outros apontam que Abracadabra representa seu single mais forte desde Shallow ou G.U.Y.. O portal Pitchfork observou que, embora a música não inove radicalmente, ela traz um apelo nostálgico que funciona bem.
Nas redes sociais, os fãs celebraram a coreografia intensa e o retorno de Gaga à sua essência mais teatral. No Reddit, discussões sobre os paralelos com Alejandro dominam os fóruns de fãs, com muitos elogiando a capacidade da artista de revisitar seu próprio legado sem parecer obsoleta.
O feitiço de Lady Gaga continua
Com Abracadabra, Lady Gaga reafirma sua posição como uma das artistas mais influentes da música pop contemporânea. O single captura o espírito dual de seu novo álbum, Mayhem, enquanto presta homenagem a momentos icônicos de sua carreira. Seja pelo apelo visual marcante, a mensagem política ou a execução musical envolvente, Abracadabra prova que, mesmo revisitando elementos do passado, Gaga ainda consegue encantar e inovar.
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