Pular para o conteúdo

Vecna em Stranger Things: o simbolismo no verdadeiro vilão da série

Stranger Things é uma série americana de terror e ficção científica que se passa na cidade fictícia de Hawkins, Indiana, nos anos 1980.

Lançada pela Netflix, a quarta temporada da série nos apresenta a Vecna, um verdadeiro bicho-papão que se alimenta de memórias traumáticas e pensamentos distorcidos, fazendo suas vítimas diretamente do Mundo Invertido.

Chegou a hora de você mergulhar comigo nesse personagem e entender por que cada cena dele na série merece toda a sua atenção (contém spoilers).

Vecna_Stranger-Things_Mundo-Invertido
Vecna em uma de suas cenas brutais no Mundo Invertido

Vecna em Stranger Things

Vecna (Jamie Campbell Bower) é o maior e único verdadeiro vilão de todas as temporadas de Stranger Things. A série nos revela que ele é a força motriz por trás de tudo de estranho que acontece em Hawkins.

Assim como nas outras temporadas de Stranger Things, o nome do antagonista é uma alusão ao popular RPG Dungeons & Dragons, febre na década de 1980.

O vilão tem um relacionamento antigo com Onze, muito bem explorado na nova temporada e com um alto aprofundamento do personagem:

A infância de Vecna

O nome verdadeiro de Vecna é Henry Creel, uma criança com poderes psicocinéticos e de invasão da mente, que se muda com a família para Hawkins em 1959.

Henry passa a apreciar e se identificar com um ninho viúvas-negras que ele encontra no assoalho do seu novo lar. Inspirado pelas habilidades predatórias das aranhas e impulsionado por uma psicopatia, Henry começa a tirar a vida de animais e elimina a família quando percebe que seu segredo está ameaçado.

O menino acaba nas mãos do Dr. Brenner (Matthew Modine), passando a ser chamado de Um no Laboratório Nacional de Hawkins, onde começa a ser estudado. Tão logo fica claro que é impossível controlar o garoto devido aos seus fortes poderes e sua psicopatologia.

Os vínculos entre Vecna e Onze

Onze é o décimo clone de Henry, uma das tentativas da União Soviética de criar armas humanas e controláveis. Ao longo dos anos, Henry tem seu poder suprimido e passa a atuar como monitor das novas crianças em Hawkins Lab.

Depois de manipular a pequena Onze e se libertar da coleira que suprime seus poderes, Henry comete um massacre no laboratório de Hawkins ao seu próprio estilo. Isso desencadeia um gatilho em na garota, que abre um portal para o Mundo Invertido e aprisiona o vilão nessa realidade.

O verdadeiro antagonista das temporadas da série

Em seu novo lar, Henry descobre como manipular todos os monstros (Demogorgons, Tendrils e muito mais) que o habitam.

O grande vilão da quarta temporada de Stranger Things cria o Devorador de Mentes – introduzido como o antagonista da segunda temporada da série – uma massa escura, nebulosa e inteligente, capaz de aprisionar a consciência de todas as formas de vida do Mundo Invertido em uma espécie de Mente Colmeia (Mente Coletiva)

Vecna fica mais forte a cada vítima, alimentando-se dos traumas e da ruína de sua presa. Sua motivação é instintiva: tornar-se o predador que nasceu para ser, trazendo ruína para Hawkins e o mundo.

Vecna em estado de transe enquanto persegue suas vítimas

A realidade na metanarrativa

A narrativa de Vecna e Onze desperta pensamentos profundos sobre como os vilões ajudam a criar os mocinhos e vice versa.

De maneira distorcida, a agressividade natural do Mundo Invertido traz a Vecna um senso de pertencimento e um cenário propício para o desenvolvimento das suas próprias habilidades, construindo uma forte dualidade que enriquece a narrativa com uma mensagem poderosa.

A dualidade e a antifragilidade

Vecna, na maioria dos aspectos, é exatamente o oposto de Onze, exceto pelo fato deles compartilharem de vários poderes e habilidades. O vilão é um versão da garota feita diretamente para o Mundo Invertido. O maior desafio que ela poderia enfrentar para transcender seus traumas e se tornar finalmente uma super-heroína.

O contraponto entre esses dois personagens fantásticos tem amarras ainda mais profundas em termos de valores e vocação: ela quer salvar, ele quer destruir; ela aprendeu a socializar e recebe apoio dos amigos para alcançar seus objetivos, ele aprendeu a dominar a mente de outros monstros para tal.

Ser antifrágil é evoluir perante a adversidade, e essa é a maior força de Onze e Vecna. A dualidade e a antifragilidade dos personagens permitem traçar paralelos com os usos construtivos ou destrutivos que fazemos das nossas próprias habilidades e das ferramentas que temos ao nosso dispor:

Uma faca pode facilitar o preparo de uma refeição ou ser utilizada como uma arma. Um engenheiro aeroespacial pode projetar foguetes ou mísseis. Uma mente brilhante pode dar início a um trabalho de mobilização das nações para melhorar os indicadores da fome no mundo ou para iniciar uma guerra pelo poder global.

Henry e Onze no laboratório de Hawkins

Vecna é também uma mensagem sobre saúde mental

Na série, todas as vítimas de Vecna possuem algum histórico de traumas sérios e/ou problemas de saúde mental. O vilão busca pela presa perfeita em uma quase homenagem ao Cérebro, dispositivo utilizado pelo Professor Xavier em X-Men.

Nos momentos em que Vecna invade as mentes já comprometidas das pessoas e as coloca em transe, ele começa a corromper memórias e pensamentos, além de acionar gatilhos para destruí-las psicologicamente. Uma vez profundamente abaladas, as pessoas se tornam alvos fáceis para o ritual de sacrifício do vilão.

Os principais alvos de Vecna são adolescentes, pessoas em uma fase crucial para o desenvolvimento e manutenção de hábitos socioemocionais importantes para uma vida mental saudável.

Realidade e ficção se colidem quando compreendemos Vecna como uma alegoria à ansiedade, depressão e tantas outras psicopatologias silenciosas que comprometem a percepção de mundo e a motivação com a vida.

A arte é uma lente que nos faz olhar para a realidade a partir de um ponto de vista simbólico.


Stranger Things não é sobre o sobrenatural, mas sobre as pessoas comuns. A série retrata por meio da sua metanarrativa a experiência psicológica e emocional de crianças e adolescentes em situações muito elevadas. E faz isso com maestria.

Vecna ainda será bastante comentado ao passo em que as pessoas forem descobrindo mais das suas nuances. O elevado número das pessoas falando desse personagem nas redes sociais e em matérias demonstra a força do simbolismo para as metanarrativas nas experiências audiovisuais e o seu potencial de transmitir mensagens poderosas.

pt_BR